quinta-feira, 14 de maio de 2009

A senhora lá do fundo que mal se vê no desenho dizia em voz alta:

Você pensa que eu não vi, mas eu vi muito bem que você me esteve a desenhar!
Sim e não foi só a mim, foi a mim àquele senhor do chapéu, foi esta senhora, foi este senhor aqui, que eu também vi, olhe que eu também sou artista e sei muito bem como é que é?
Quer que eu chame a polícia!...

_Até aqui ainda não tinha percebido se a senhora achava piada aos desenhos ou não, quando falou que era artista... pensei que tinha uma admiradora, mas quando disse que chamava a polícia...

_ Você não sabe que o que está a fazer é proibido! Eu posso lhe pôr um processo! Sabia disso? Ora diga lá como se chama?

_Procurei não dar ouvidos enquanto as cabeças dos passageiros que estavam de costas procuravam afinal quem era o fora da lei?

_ Sim você aí, foi esse senhor, desenhou-nos a todos!!!

Depois de ter sido identificado, repostei...
_ Oh, oh minha senhora não esteja a ser ridícula, eu posso desenhar onde me apetecer!

Nesse momento a senhora sentiu necessidade de organizar o seu exército, e em tom de campanha começou sem grande sucesso a tentar encontrar adeptos à sua causa, dirigindo olhares de convicção às pessoas que se sentavam por perto, até que o passageiro à sua frente se vira para trás e num bom tom de voz desarmou a senhora...

_ OH! MINHA SENHORA FALE POR SI!.. Não esteja a olhar para mim... fale por si!

A senhora meteu a viola no saco, saiu de "fininho" na estação antes da minha e quando passou por mim ainda sussurrou...
Eu sei muito bem... eu também sou artista!

22 comentários:

Eduardo Salavisa disse...

Há artistas de todo o género e feitio.

Simonetti disse...

ADOREI!! Procura outra vez a senhora para a desenhar!

Filipe LF disse...

Um episódio que traz à memória o do Bismarck no Egipto ou o do António Jorge Gonçalves num qualquer metro do mundo.
Qualquer dia alguém tem de fazer uma antologia destas histórias, para deleite dos netespectadores...
Abraço

Baleia disse...

hihii... lindo!
fartei-me de rir com este post.


bjnhs

Rosa Baptista disse...

Ha ha!!
O que me ri!! Encontra-se de tudo nos transportes públicos, é esta riqueza que torna "os meios" um local fértil de observação da espécie humana sapiens citidinus ridiculus :)

PeF disse...

Isso dos desenhadores em espaços publicos, uma corja! Um cancro que mina este pais! Era arrastá-los para um pelourinho e deixá-los lá sem roupa a ver se aprendem decoro e decencia. ;)

JASG disse...

Conclusão: todo o cuidado é pouco ao desenhar "artistas"...

:-)

cláudia mestre disse...

Eu acho que, na verdade, a senhora adorou sentir-se observada e desenhada. Fez-lhe bem à auto-estima :)

João Amorim disse...

Eu não sei se gostava de servir de modelo para os teus livrinhos. Ainda se fosses um "artista"... vá lá que não vá... ainda por cima usas pouco o azul...

OrCa disse...

Se há coisa perigosa, neste mundo, são os artistas! Os artistas e as artistas, claro... Quando menos se espera, uns dão-nos asas num esboço, outros voo a meio de um verso.

Mas nada pior que o artista no seu reverso - pois, esse mesmo que, por dá cá aquele lápis, chama a polícia. É o artista com «...».

Ele há «artistas» destes danados para a brincadeira.

Fuzhong! disse...

Surreal! Ainda não me aconteceu uma destas.

Talvez porque só desenhe em sítios ermos...

Abraço

zamotanaiv disse...

Lindo!! hehe!

cat in a bag disse...

Quando vou a desenhar no autocarro tento ser discreta para evitar essas situações... Mas às vezes é dificil. =P

Monica Cid disse...

um fartote de rir ;D ;D ;D

pozinhos... disse...

tchi um verdadeiro mimo este episodio :)

beijinho mestre

cate disse...

Que história fantástica! A verdadeira riqueza da biodiversidade!!!!!

Quase Blog da Li disse...

Olá João Catarino,
perdoe-me,
mas confesso,
fartei-me de rir com seu acontecido!
Sei bem como é desagradável
encontrar essas "pessoas" pelo caminho.
Passei por um episódio parecido em Galícia, só que a senhora sacou de um chicote e levei 2 correadas no pescoço. Isto dentro de uma igreja. Agora acho graça, mas no dia fiquei muito assustada, marcada e chorei muito!
Por aqui, no Brasil, as pessoas não se encomodam, até se sentem lisonjeadas em serem "modelos casuais".
Estou com o Felipe LF: "Qualquer dia alguém tem de fazer uma antologia destas histórias, para deleite dos netespectadores..."

A despeito do ocorrido, admiro muito o seu trabalho; tens uma linguagem única; um traço muito original e nada convencional, uma ocupação no espaço irreverante e criativa e o trato puro com as cores dão vida ao desenho.
Seu trabalho tem energia, transpira!
Isso é para poucos, parabéns!
Saudações
Li

Casabranca disse...

Gostei da história...já me aconteceu parecido no meio do Alentejo a desenhar sobreiros...e meteu guardas florestais de caçadeira...mas acabou tudo em beleza
quanto aos desenhos acho uma grande ideia das composições a dois tempos. A carruagem vazia que vai acolhendo os passageiros

joana viegas disse...

olá, mestre!
quando vejo estes desenhos, penso sempre:
onde está o pão de forma?
onde está o boogie?
e a carmo?
tenho-te visto passar na rua q sobe para o ar.co., nunca te consigo falar pq já vais longe...
ouvi o prof catarino mais velho na radar, foi memo giro, parece parecido contigo até na rádio...
fizemos anos de novo, eu 33 e tu mais alguns...
não sou nenhuma barra, mas também sou artista como a sra do comboio!

bjs!

CatarinaGarcia disse...

O que as pessoas fazem só para chamar a atenção! O que vale é que mais ninguem ligou à senhora..
Adoro os teus desenhos, venho sempre que posso cá ver!
Saudades dos workshops do cieam!!
bj,
catarina

xiclet disse...

No supermercado, há uns 10 anos atrás. Um senhor vestido de branco e grande (talvez da secção da frutaria ou charcutaria) da um toque no meu ombro.
- Desculpe, mas a senhora está a fazer [palavrão técnico incompreensível]?
- Eu?.. não, quer dizer.. não sei. Isso é o quê?
- É que a senhora não pode estar a fazer isso aqui?
- Mas eu estou só a desenhar.. - já com vontade de ir ter com a minha mãe - não posso fazer o quê?
- É que não pode fazer isso aqui.
- Não posso.. desenhar?
- Não, não pode desenhar aqui.
- Mas é para um trabalho de escola.. é só desenhar, senhor..
- Mas não pode.

Dias depois arranjei um "saco do voyer" (saquinho comum cosido com uma parte de plástico transparente) e fotografei tudo quanto pude.
:P

Sara Simões disse...

Também tenho desenhado bastante em espaços públicos (principalmente comboios) mas nunca tive peripécias destas.
Até no Continente já estive a desenhar encaixes de packs de cerveja para um trabalho do curso de design, e o máximo que me disseram foi: "Ó fachavor, onde é que posso encontrar os tapetes de casa de banho?". Pelos vistos dei ares de trabalhadora e ninguém me considerou uma ameaça.

A minha amiga Matilde é que já teve uma história digna da antologia. A moça começou a entusiasmar-se com os desenhos e arranjou o seu primeiro diário gráfico. Algumas horas numa sala de espera deram-lhe a oportunidade de estrear o novo caderno. Foi desenhando as várias pessoas que por lá passaram até que uma senhora se apercebeu de que estava a ser desenhada. Chamou o marido e decidiu tomar uma atitude. Abordou então a Matilde, dizendo-lhe que ela não podia fazer aquilo, que era uma violação da sua privacidade, que era ilegal, que ela tinha de rasgar os desenhos e deitá-los fora.

A Matilde nesse dia não estava com disposição para contrariar a senhora e fez-lhe a vontade. Rasgou os desenhos e pô-los no lixo.

Foi então que ela se pôs a reparar nos pedaços no caixote.
"Olhe que até estão giros... Sendo assim..., já que não vai ficar com eles..., então levo-os comigo!"

É preciso ter muita, muita lata.

Caros artistas, dá jeito usar uma capinha da invisibilidade (como o Frodo do Senhor dos Anéis, para passar despercebido entre os orcs) para andar por aí a desenhar. Se encontrarem à venda na Fernandes, Corbel ou similares, por favor divulguem.