quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Passado Vila do Rei no centro geodésico de Portugal rapidamente se inicia uma descida em direcção a Abrantes onde se atravessa o Tejo, que marca a verdadeira fronteira entre o norte e o sul. Daí para baixo a paisagem muda radicalmente, as grandes rectas provam que o terreno é agora plano. Aproveito para "desentorpecer" o motor à carrinha e quando penso que vou nos limites olho para o lado e vejo-me ultrapassado por um casal de velhotes numa Citroen Dyane!
A imagem que humilhou o "pão de forma" ficou na retina e o desenho saiu mais tarde.
A motorizada do padeiro da vila de montargil, provavelmente nunca avariou, talvez tenha trocado a vela uma vez, eventualmente mudado um pneu, a borracha do pedal do kiko de tantas vezes ter pegado talvez se tenha soltado, o padeiro não se lembrará da ultima vez que passou óleo na corrente.
O bloco do motor é alemão tudo o resto é nacional e igualmente indestrutível.
Feitas as contas, será o veículo motorizado em que o kilómetro sairá mais barato.
Se virmos fumo azul pela berma da estrada e ouvirmos aquele barulho triiimm tim tim é porque ainda anda alguma por aí.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Depois da overdose de kilómetros feitos no dia anterior, parto para o 4º dia de viagem pela N2 com a folga de tempo suficiente para poder apreciar devidamente os derradeiros kilómetros na Serra do Caldeirão, que conhecendo já o seu traçado sabia que eram bem interessantes.
Passados os campos de girassóis seguem-se os de trigo, até o terreno se tornar progressivamente mais sinuoso quando no aproximamos de Almodôvar.
A N2 está prestes a finalizar e da melhor maneira, às curvas pela serra do Caldeirão.
À saída de Almodôvar está um grande placa que classifica como Património Nacional os 60 km do troço que se segue até Alportel.
Aqui a estrada foi recuperada no seu traçado e estética original, pintaram-se os muros que ladeiam as pontes assim como os pilares com rede de protecção,
marcos e tabuletas em cimento armado tal como se fizeram nos anos 30.
O magnífico encadeamento das curvas e contra-curvas que se segue, só pode ter sido desenhado por artistas com um enorme sentido automobilístico para deleite dos verdadeiros apreciadores de condução.
Ainda se encontram algumas casas dos cantoneiros que de norte a sul seguem o mesmo padrão arquitectónico “português suave”, que aqui datam de 1937, quando terá sido pavimentada aquela que fora em tempos a estrada real que ligava pelo interior do Caldeirão Faro a Almodóvar.
Os kilómetros que se seguem de Alportel até Faro, mal se conseguem contar pelo desmazelo do velho traçado. Tal como em Chaves no kilómetro 0 também aqui tive de seguir a pé pela berma para poder encontrar o ultimo vestígio da marcação da Nacional 2.

O relato em video deste 4º dia pode ser visto aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

4ºDia EN2

O 4º dia de viagem pela EN2 começa assim, com um belo banho de madrugada em Montargil entre lagostins de rio, cegonhas e achigãns.
Acordo bem cedo para que mais uma vez desenhos e kilómetros pudessem encaixar num só dia. Este seria o ùltimo que me levaria a passar toda a planície do Alentejo até às curvas da Serra do caldeirão no Algarve e finalmente descer até ao litoral em Faro onde a N2 completaria 740km.

ver excerto em: http://www.ionline.pt/itv/16312-atravessar-o-pais-pela-en2---4-parte-viagem-montargilfaro
Depois de Montárgil, a viagem pela EN2 segue rumo a sul, daqui para a frente sei que não vou ter a oferta da qualidade de barragens e praias fluviais que me fui habituando nos kilómetros passados na região norte e centro.
Perto de Mora, sem fazer um grande desvio, passei ainda cedo pelo Fluviário. Não tinha ninguém, estive frente aos aquários a desenhar os achigans e outros peixes que tinha visto.
Vale mesmo a pena fazer um desviozinho ao chegar a Brotas no ùnico sítio em toda a N2 onde esta se torna tão estreita que só passa um carro, virar para uma estrada de terra e andar cerca de 2 kilómetros até à Torre das Águias,monumento insólito abandonado no meio do nada, verdadeiramente fantástico!
Parei para desenhar esta Igreja em Ferreira do Alentejo, exactamente onde a N2 cruza a N121. A partir daqui seguem-se os campos de girassóis depois os de trigo antes de se entrar na fase derradeira das curvas do caldeirão. A viagem aproxima-se do fim.
Na hora do calor as vilas alentejanas parecem cidades fantasma, mas por onde a sombra passar lá estaria sempre alguém a que pudesse perguntar.
Estações de serviço eventualmente da década de sessenta. Foram verdadeiros ancoradouros para se verificar tudo a quem somava horas de viagem. Funcionavam como ponto de civilização mais próximo, havia telefone deixava-se e levantava-se o correio.
Olhei com inveja o preço do gasóleo agrícola.
Quem me dera que a carrinha gostasse desta ração de segunda e se deixasse de fidalguias de gasolinas cheias de octanas ainda enriquecidas com aditivos energeticólubrificantes.
Paro num campo de girassóis, sem desligar o motor para um chichi rápido de beira da estrada. No regresso à carrinha o desenho era inevitável, a linha de horizonte do amarelo dos girassóis prolongava-se pela mesma linha de cintura amarela da VW.
As casas dos cantoneiros datam de meados dos anos trinta, vêem-se ainda um pouco por todo o país, todas com um estilo arquitectónico idêntico, umas abandonadas outras reformadas para outros fins. Curiosamente datam todas desta mesma época de grande incremento nas obras públicas, enquanto Duarte Pacheco foi ministro.
Este é o painel de instrumentos da velha nave amarela que me levou primeiro de Lisboa a Chaves, depois de Chaves a Faro e finalmente de Faro novamente a Lisboa, numa viagem em tom de reportagem sobre a EN2, feita em Julho passado e publicada no jornal "i" durante 4 dias no princípio de Setembro.
Apresento agora aqui e de forma integral a viagem pela estrada Nacional 2 em sentido inverso, ou seja de Faro até Chaves de forma a respeitar a estrutura deste blog que apresenta os cadernos de trás para a frente para que no fim tenha uma leitura sequencial lógica.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Caderno amavelmente oferecido pela minha ex aluna "Norma"
pouco tempo depois de durante uma aula ter explicitamente gabado o seu caderno (igual a este)!
Excelente encadernação portuguesa, capa 30x21cm, com cantos reforçados, forrado em papel fantasia, miolo em papel cavalinho.
O caderno esteve "ao serviço" entre Março e Maio numa altura que os desenhos corriam com um caudal bem maior do que agora.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Esta senhora levava mesmo um enorme casaco vermelho.
Por causa dela em plena viagem enchi o reservatório de um pincel de água com tinta da china vermelha.
Foi ela a responsável pela contaminação do vermelho nos outros desenhos que se seguem.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

No comboio na janela do lado de lá, vê-se o filme da paisagem de rio que passa a toda a velocidade. Do lado de cá, vê-se a fila de carros que por mais potentes que sejam se vêm impotentes para acompanhar a minha janela. Ao meu lado enquanto desenho, há quem leia e trabalhe a todo o gás.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Esta senhora estava sentada demasiado perto, era por isso um alvo improvável para um desenho, mas há pessoas, especialmente, senhoras que parecem nem pestanejar, nem mudar a direcção do olhar, será talvez uma defesa pessoal anti agentes exteriores, criam uma espécie de casulo invisível em torno de si próprias.
Seja como for, assim tornam-se presas fáceis, mesmo tão perto estava seguro que a senhora não ia reagir.
Mas não fosse a senhora sentir-se mal, pelo sim pelo não desenho só a mala, o resto é que é o acessório.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O desenho não é de hoje mas podia, é mais um reencontro com a luz que atravessa esta sala nestes dias sol intenso, olho o rio e a direcção do vento e nem quero imaginar a praia que está!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Na tropa não passei de cabo, fiz a macaca, fui feijão verde de infantaria, ainda assim arrisquei...
Puxei por esta desgraça de galões e subi as escadas que davam acesso ao clube de Sargentos no último andar de um prédio antigo da Rua de Alfama junto à paragem do eléctrico.
Entrei todo emproado tal como me lembro em tempos ter andado na parada, passo decidido como se fosse da casa, não olhei muito em volta não fossem desconfiar não ser sargento e muito menos, não pertencer ao clube.
Senti-me observado como quem é o alvo duma repreensão pela falta de atavio numa revista às tropas, olharam-me dos pés à cabeça mas fui bem atendido e melhor servido.
Num clube de sargentos dificilmente se comeria mal, a posta de bacalhau assada na brasa era alta espessa, saía às lascas no meio de batatinhas a murro, alho esmagado e muito azeite, o café é na salinha ao lado junto de troféus e galhardetes, ou então na varandinha com vista para alfama.
Afinal o clube é aberto a pessoas como eu sem patente, mas tal como em todos os clubes aos quais não se pertence, somos sempre estranhos.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Às vezes sou eu que subo para cima de uma mesa para servir de modelo e desenhar quem me está desenhando.
O fogo cruzado de olhares que atravessa o silêncio da sala é fantástico.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pronto!
Agora é que foi mesmo! O começo de Outubro marca definitivamente o mudar de página no calendário lectivo. Nunca consegui resolver bem a ideia das férias grandes se irem encurtando com a suposta maturidade. Todos os anos passo pela angústia de deixar a casa da Ericeira agora que acabaram as nortadas, o mar aqueceu, se instalou o "glass"* e as ondas chegam mais perfeitas e mais consistentes.
Pronto! Agora é que foi mesmo o Ar.Co começou e CIEAM na Fac. de Belas Artes também, regresso ao ritmo urbano com o enorme privilégio de continuar com belas vistas seja na sala da colina nascente seja na sala da colina poente.

*"glass" situação delicadamente frágil em que se encontra a superfície do mar enquanto não sopra a mais pequena aragem, produzindo um espécie de película viscosa aquecida na fina camada superficial que é pulverizada por estrelinhas encandescentes, reflexos de luz cintilante provocada pela incidência dos raios solares sobre um determinado ângulo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Tal como nas touradas, nas carruagens ou mesmo na vida, há sempre quem reserve o seu lugar ao sol, ou na sombra!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Estes desenhos como disse já têm uns meses, andava nessa altura entusiasmado a experimentar as cores fortes com que tinha enchido os pínceis de àgua. Já tenho saudades de regressar a estas cores.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Aqui há tempos antes duma pequena palestra sobre cadernos de viagem na Fábrica de Braço de Prata, para fazer tempo entro numa sala onde também estava o Tim mais uns músicos a ensaiar umas musiquinhas mansinhas do seu album a solo.
A coisa suava a "fraquinho", faltava lá o Cabeleira, o Kalu, o Guy e o Zé Pedro para dar aquela grande "malha" que durante 30 anos tanto ajudou a crescer a geração anterior à minha, à minha, à seguinte, à que veio depois e à que está para vir!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Desenhar no comboio implica por vezes enquadramentos difíceis, na tentativa do disfarce, procuram-se alvos menos óbvios, cortam-se cabeças aparecem outros membros pela frente como se andasse a disparar ao calhas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Há sempre motivos mais floridos do que outros.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Este desenho levou 3 semanas a fazer. Não pela complexidade da arquitectura barroca do monumento, mas porque foi sendo feito sempre à mesma hora, no mesmo dia da semana, nas sobras de tempo, nos fins de tarde quando chegava cedo demais às aulas das Caldas.
Agora quando as sessões de desenho na rua começarem tal como na primavera quando este desenho foi feito, ainda vou poder contar com dias como este em lugares magníficos como as portas do sol, a primeira colina a aquecer.