quinta-feira, 16 de julho de 2015

Azarujinha

Próxima Estação... São João do Estoril. Assim continua a minha viagem, nesta direcção, no sentido contrário à rotina. Dizia o pensador Francês Marcel Proust que “A viagem da descoberta consiste não em achar novas paisagens, mas em ver com novos olhos”. Nesta viagem nada é novo, tudo me é alias bastante familiar, as estações sucedem-se num alinhamento cada vez mais próximo de casa, só o facto te ir de comboio para a praia ganha sabor a adolescência, assim como o som do trim trim da única passagem de nível ainda existente junto à estação de São João. Aqui acabam os Estoris, dizia-se de forma trocista no início do séc.XX, Cascais – nobreza, Monte Estoril - grandeza, Estoril – grandela, São João – meia tigela! Ilustração de uma estratificação social que assim classificava a sucessiva ocupação e edificação dos terrenos para nascente. São João do Estoril foi ao longo do tempo sucessivamente retalhada, primeiro pelo Caminho de ferro que delimitou a fronteira entre alguma populacão rural residente a norte e as construções apalaçadas de veraneio a sul. Mais tarde com a construção da marginal que aqui bifurcou e separou o lado sul em retalhos, caminhos e becos sem saída. No caminho sinuoso para a praia passa-se pelo Santini com a menor fila à porta que se conhece, parece estar ali um pouco deslocado! Alguns metros à frente depois de virar a esquina sou tentado a entrar numa drogaria de bairro que pensava já não poder existir. Tudo ainda se vende naquele lugar fiel ao cheiro próprio das drogarias antigas, que nunca soube identificar ou saber a proveniência, provavelmente fruto da soma de todas as proveniências que estão expostas nas prateleiras, penduradas no tecto ou nas paredes. A porta abre directa para o tráfego de um dos sentidos da marginal, a drogaria Rodrigues é um exemplo ainda vivo do tempo em que estas ruas eram feitas a pé ou pelo menos a uma velocidade de passeio. A esta hora da manhã enquanto não se levanta a nortada e a briza vem do mar, quando se atravessa a segunda via da marginal já cheira às algas. Uns metros à frente antes de descer pelos sucessivos degraus de acesso à praia tem-se uma vista elevada sobre a transparência da água e do pequeno areal da Azarujinha. Talvez seja esta a mais mediterrânica praia urbana de Portugal, talvez a mais bonita praia da linha, talvez Proust tenha razão, viajar não tem a ver com a distância, a melhor maneira de ver com novos olhos talvez seja mesmo fazer um desenho.

4 comentários:

Rui Machado disse...

Bela descrição. Por falar em drogarias, vê-se que ainda não foste à drogaria Cajoar no Monte Estoril. Até tem escovas de dentes de cerdas naturais !!!!

joana gama disse...

Obrigada João pelas boas memórias que trouxeste.
Foram muitos dias, muitas horas, neste pequeno paraíso, enquanto as aulas ficavam para trás.
Joana

joana gama disse...

E como sempre, uma reinterpretação do real magnifica.

salim khan disse...

Você pode passar algumas horas nesse lugar .. Também verificar Portuguese Gastronomy Tour